hit me!


anonimato, jazz e origami

 Os infames (os sem-fama) me deliciam o dia com seus presentes anônimos. Passam despercebidos até quando presenteiam, eis um dom. Próximo aqui de casa, na praça da Igreja Santa Cecília, visito com freqüência e de passagem um trompetista anônimo de rua. Mas esta tarde encontrei outro infame jazzista das multidões. Ele, um velho negro de bigode branco, sua boina, seu sax e seu fôlego melódico. Rua 24 de maio. Haja turba enlouquecida. Parei, encostei na parede e ali comia qual mosca faminta toda aquela cantoria suave e gutural que ele me jogava no chão e no ar. Pela glote do sax, o velho dizia o não-verbo em ondas sonoras. Deixei-me tragar por um longo tempo. Fui até o homem, depositei algumas moedas ali na boca do sax, onde um saco de pano estava dependurado, fui acenado com o próprio instrumento, sorri de canto de boca e saí andando com um belo tiro no peito. O Nick entende de pessoas que nascem com buracos no peito.

Aquele sax não era impulsionado pelo pulmão de um homem, já que este era o próprio. O instrumento se prolongava de sua boca como uma língua metálica oca. Aí me vêm as dobras na cabeça. “Plis selon plis”, dobra sobre dobra, de novo. É que são pelas dobras, pelos cantos rugosos, pelas quinas e pelas fissuras entreabertas que o som se produz. A brisa de um fôlego acaricia essas dobras e aí nasce uma sibilação, um silvo de metal e vapor, vulto sonoro nas reentrâncias. Aquele velho era um origami com uma boca de sax, assoviando sua bela infâmia, na turbamulta passante.

Post Scriptum: não posso pensar a não ser por dobras, i’m sorry. É que após o terremoto de Kobe no Japão, em janeiro de 1995, a escola em que eu estudava língua japonesa (não, não sou descendente) enviou mais de 10.000 “tsurus” (cegonhas) ao Japão. Kobe foi invadida por pássaros multicoloridos de papel feitos por mãos anônimas. Minha impressão digital deve estar lá, em mais de centenas de malditas cegonhas, que simbolizam a esperança. De revitalizar Kobe. Não é isso que me importa, já que gosto de desastres naturais. É que tenho a impressão de que me tornei um origami, depois de tanto dobrar as drogas das cegonhas. É de sopro, dobra e som que estou falando.

(músicas do dia: Chet Baker – “my funny valentine”; Bauhaus – “crowds”)                                                                                          



Escrito por zé às 14h20
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o louva-deus, ou seja, o paga-pau

"Ah, a virilha de deus. Sempre ela e seu langor, como o "étants donées" do Duchamp. Isso de querer violar deus e todas as coisas ainda vai nos levar a(quém[?]). Onã foi o que chegou mais perto. Mas, como um desperdiçador de sêmen(tes), deixou tudo cair ali, pra fora, na virilha mesmo. Onde pouso e recolho as sementes de Onã, agora.

Glória e louvor a ti, milorde, o Grande Arquiteto do mundo."

O louva-deus.

[Post Scriptum: tsc tsc tsc... quanta viadagem...]



Escrito por zé às 17h49
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old times

Tia Cidinha, Tia Neide, Tia Fátima, Tia Rose... merda, encontrarei todas no inferno. Professorinhas de primário que perderam "a" tesão (como diria o Mirisola), de onde surge essa estirpe? Lembro do meu primeiro dia de aula, na 1ª série (B). Colégio Hugo Simas, Londrina, 1987. Ouvi um som de esguicho vindo lá do fundo da sala. Uma ruivinha de porcelana, chamada Flávia, estava se mijando toda, sentada naquelas antigas "carteiras-caminhão". Épocas de loira-do-banheiro e cheiro de laquê da vovó. Ah, e gel New Wave. Voltando... a maldita cara de gárgula da professora Cidinha impedia qualquer um de indagar qualquer coisa. Quanto mais ir ao banheiro.

Era nessa época que perguntavam pra mim se era menino ou menina (tinha o cabelo igual do Ludovic, do filme "ma vie un rose"). E era nessa época que eu tinha um desejo incontrolável de espancar uma linda japonesinha magricela. Os orientais sempre fizeram parte da minha vida. A máfia yakissoba é o caso mais recente e confirmador deste fato. Dizia eu pra japinha:

- Vamos tomar água juntos?

- Urrum.

- Então vamos correndo, vai... corre, corre! Mais rápido!

E lá estava meu pé entre um passo e outro da Tiemi, que se esborrachava no chão. Depois chegava em casa, rezava "3 pai-nosso e 2 ave-maria". Aí fui aprendendo a controlar melhor certas bestialidades sociopatas. Pedagogos e adestradores de circo são necessários, às vezes. Mas só raramente.

Putz, Tiemi, foi mal. Errei o alvo. Tinha é que meter o pé na canela cometida pela osteoporose da Cidinha, a professora-gárgula. Que nos fudeu a cabeça. Será que a Flavinha virou feticheira especialista em chuva de prata? Seria ótemo. Enfim, no próximo ciclo "post mortem", se não me tornar buda e atingir o nirvana (tomara que não, tá divertido isso aqui!), quem sabe amarramos a Tia Cidinha numa cadeira, e a ensinamos direito:

- Pay attention, class! Repita comigo: d-o-i-s + d-o-i-s = c-i-n-c-o!

(música do dia: Radiohead - "2+2=5")



Escrito por zé às 11h24
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o sangue é um gentleman

- Que houve com ela, fia?

- Hum... parece que foi infarto! Tava entrando no mercado e caiu, de repente!

- Ih, meu marido já teve 2 veiz. Se não tomá remédio direitinho, é pá-pum! Capota memo, fia!

A turba se amontoava ali na esquina do mercado Compre Bem, próximo ao minhocão, essa tardezinha. O vento levantou parcialmente o plástico envolvendo o corpo da velha, me revelando as mãos lívidas, cruzadas sobre o ventre. Enquanto o corpo era engavetado, lembro do Carpinejar: "O sangue é educado. Apaga a luz, ao sair".

As fitas listradas de amarelo e preto ("keep out") são rapidamente retiradas. Ao entrar no mercado, percebo que está tocando "sweet dreams", do Eurythmics. Que sugestivo. Adoro ironias do destino. Como de costume, fui direto às prateleiras etílicas. Destilado ou fermentado, hoje? Opto pela promoção da vez: Chateau Duvalier, tinto, "gamay". Duas garrafas. Ao sair, percebo que a turba já retomou seu posto civil e workaholic de "sai-da-frente-que-atrás-vem-gente". Uma minúscula poça de sangue, já coagulada e ressequida, me chama a atenção, na calçada. Provavelmente o lugar onde a nuca senil e pálida bateu e abriu um corriso rubro. Fui pra casa com o Carpinejar na cabeça. E imaginando o tédio que seria morrer de "morte natural". Puta piada sem graça, essa. Já se nasce como produto de uma fornicação, sem opção alguma. Morrer, do mesmo jeito? Pregui(ça) disso. Por isso todo suicida, de uma certa forma, é alguém que decidiu nascer (mesmo que pelo avesso). Nascimento sem filiação.  

Bah...



Escrito por zé às 17h44
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)antepasto(

No fundo, em todo fio inerte de náilon há uma canção latente. Ariadne canta o caos ao esculpir com ele uma dobra legível. A escrita, a escrita. Passa por isso. Uma tentativa de não enlouquecer, ou enlouquecer arbitrariamente.

Oxim-o-rama. Na escrita, o “everyone”, o “eu que é um outro”. A vida se passa como num palimpsesto, o pergaminho de coro onde se escreviam textos na Idade Média e, após ser raspado com marfim, permitia uma nova escrita. Na verdade, a raspagem não apaga o texto anterior, não o deleta, mas o conserva na filigrana do corpo do coro, uma reminiscência dobrada. Como as camadas de uma cebola origâmica. “Plis selon plis”, dobra sobre dobra.

Engraçado. Há quem diga que no instante que antecede a morte (alguém se afogando é uma boa imagem), a vida toda se passa diante do sujeito. O palimpsesto esgarça, então, toda sua memória, diante das pupilas explosivas? Isso me traz à mente um molusco, a sépia. Quando ameaçada, esguicha um jato negro de tinta que envolve o predador, confundindo-o enquanto ela foge, em jatos de abandono. Não, não é um ato covarde de quem se borra diante da morte. É uma escrita em forma de nevoeiro-nanquim. Uma escrita masturbatória, como deve ser. E onde o predador (leia-se também: bajulador) procura o Autor, o Grande Escritor para encontrar naquela névoa toda de tinta seu animalzinho de estimação, o corpo do escritor já estará longe, alhures. Ao se escrever, são jatos de nanquim que fazem o corpo entrar em devir, lançando-o ao inóspito.

“No meu corpo não se toca nunca”, diria Artaud.



Escrito por zé às 14h18
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