três.

“O Bestiário”, à beira do porto, era um bar que abrigava uma fauna e flora variadíssima. À maneira dos cenários do Gabinete do Dr. Caligari, as formas assimétricas e bêbadas se confundiam com o torpor dos visitantes. Dentre eles, estavam numa mesa Abigail e Augusto. No Bestiário, estranhos odores despertavam em todos uma sensação de déjà-vu constante, ou seja, mesmo sóbrio, a impressão ébria das coisas, ali, era inevitável. Mohamed, o suposto dono do local (ninguém sabia ao certo), só servia bebidas com pequenos animais dentro. Crustáceos, moluscos, mamíferos, etc. Raros, muito raros. Desde natimortos hermafroditas e siameses de qualquer espécie até batidas com leite de búfalo e saliva de unicórnio.
Entre a algaravia, destacava-se no palco um castrato e sua banda de jazz, cantando “this year’s kisses”, da Billie Holiday. Afinal, só um castrado na infância poderia aproximar-se ao belo timbre da Billie Holiday. É o preço, para um homem.
AUGUSTO: Mohamed, o que tem naquela garrafa de líquido vermelho, ali, com a chinchila dentro?
MOHAMED: Aqui você não escolhe a bebida, mas qual animal dentro dela lhe apetece.
AUGUSTO: Então mantenho minha escolha. Sem gelo. E você, Biga, o que manda?
ABIGAIL: Então... vê uma dose de escargot. Já que são sexualmente anfíbios.
AUGUSTO: Mas e aí?... me conta das últimas. De minha parte, ando biscateando por aí. Minha última empreitada é arquivista de uma biblioteca particular. Um mafioso cult, aí, que acabei conhecendo.
ABIGAIL: Sério? Gostei disso. Mas sua amiga aqui tá meio de saco cheio de tudo. Minha mãe surtou esses dias, tive um contra-tempo com a Marina... mas não to trabalhando, o que me alegra muito. Voltei à minha vida de ladra de luxo. Ta vendo essa jaqueta? É “emprestada”, como o scarpin, também. O que achou?
AUGUSTO: Bom... legal, legal.
ABIGAIL: Ai, bofes... nunca têm refinamento estético.
AUGUSTO: Tsc... vai se fuder.
ABIGAIL: Tem trepado?
AUGUSTO: Porra, a última ficou só no "quase". Uma anta de plástico que peguei numa balada gay - nunca mais faço isso. Ela não deu conta do recado. Tinha mó jeitão de junk, mas se mostrou uma punk de boutique fresca do caralho. Não gostou do meu pau.
ABIGAIL: Claro! Pelo seu cheiro, não toma banho há dias!
AUGUSTO: Ah, mas o pau eu lavei, esse dia! No bidê!
ABIGAIL: Tá bom... acredito... quem diria, hein, Augusto? Você, com uma carinha de bunda de nenê, tão bonitinho, e com um pau tão sujo! Francamente. Seu idiota, esmegma brocha qualquer um!
AUGUSTO: Tá, tá...
ABIGAIL: Pede outra dose de escargot pra mim? Vou ao toalete.
AUGUSTO: Mohamed!...
(música do dia: Billie Holiday - "this year's kisses")
Escrito por zé às 12h26
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