
Postar com uma fome pantagruélica, ainda não o tinha feito. Dalí, el picareta, dizia em seu diário sobre sua preferência em discursar com um estimado sapato de vinil, apertadíssimo, já que assim as palavras brotavam de sua boca com uma precisão cartesiana (estranho isso, para um suposto surrealista). Já os eloqüentes da nossa era “Arte da Guerra de Sun Tzu para Empresários” (sério, existe esse livro) nos aconselham a usar sapatos bem confortáveis, com os calcanhares fincados no chão. Ou seja, esquece seu scarpin salto 15, se quiser seguir carreira política. A Frida diria: “pra que quero pés se tenho asas pra voar”, quando de sua amputação.
Escrever sob a pressão de um espaço que se enruga, de um tempo em dèjá-vu giratório, de um céu que cai, parece ser um exercício de guerra. Só assim a sépia jorra sua nuvem de nanquim no cerco da a[n]t[i]mosfera marítima.
O céu tomba. Cadê meu menir, cadê o Obelix? Ah, deixem que caia, e que o matrimônio se faça com a terra, com o inferno, seja lá como você chama o local desse impacto.
A mineira Adélia Prado entende dessas situações-limite. Taí a prova:
“A mim que desde a infância venho vindo como se o meu destino fosse o exato destino de uma estrela apelam incríveis coisas: pintar as unhas, descobrir a nuca, piscar os olhos, beber. Tomo o nome de Deus num vão. Descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer. Vinte anos mais vinte é o que tenho, mulher ocidental que se fosse homem amaria chamar-se Eliud Jonathan. Neste exato momento do dia vinte de julho de mil novecentos e setenta e seis, o céu é bruma, está frio, estou feia, acabo de receber um beijo pelo correio. Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.”

[música do dia: Adoniran Barbosa - "tiro ao álvaro"]
Escrito por zé às 12h56
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