Mãe,
Tenho escrito pra Marina com certa freqüência. Escrever e andar sem rumo acabam tomando todo meu tempo. Mas já falei pra Marina sobre minhas intenções em abolir o Tempo e a Palavra. Não, não estou tomando drogas. Pelo menos alucinógenos não. Lisergia não é comigo. Já basta o mundo colorido e toscamente refinado da publicidade, invadindo nossa córnea em mensagens subliminares. Abolir essas duas coisas é só uma tentativa de passar meu tempo, junto do meu pequenino Hans, o peixinho dourado que me acompanha, engasgado em água suja. Conheci um padreco muito gentil, dias atrás. Tenho ido à missas pra me refinar com a gramática dos cristãos, ela é toda-barroca, toda-requintada, toda-grave, toda-toda. É necessário estudar suas vítimas, não? Mas odeio quando o padre Milton arrrrrasta asss palavraasss quando levanta a hósstiaann sagradaannn. Aí me lembro do Voltaire, desejando o burguês envolto nas tripas do último padre. É quando levanto e saio. Quem sabe quando esfriar a cabeça me confesse com o Pe. Milton. Eu sei que Deus é uma fábula sem graça à qual não dou crédito algum, mas isso não me impede a confissão de futuros crimes ao padre Milton.
As Confissões da Carne. Da minha carne.
(O sentimento é analfabeto. O nomeie, e o estará aniquilando. Literatura deve ser isso, acho. Um exercício de guerra e homicídios entre a Palavra e o Inominável, duas coisas excludentes tentando se acariciar o tempo todo. L'amour fou.)
Teu endereço: o alto-mar. s/nº.
Toda sua,
Abigail.
Escrito por zé às 13h31
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Querida Marina,
É plena em ausência, apesar do clichê, a cadeira vazia que deixei por aí. Imagino quantos fantasmas meus não permanecem tomando as estranhas bebidas do Bar do Mohamed, roubando em lojas caras, esvaziando as letras mudas e herméticas da carne em papéis reciclados. Ai, a fantasmagoria... é que não posso evitar que se descolem de mim em lascas translúcidas, essas presenças ausentes de ectoplasma abigaílico. Te falei do tempo que preciso. Justamente para aboli-lo. Entende? Acho que os metafísicos chamariam isso de Espírito, um poeta das singelezas chamaria de relógio quebrado servindo de morada para os fungos. Não só o Tempo está na minha lista, mas a Palavra, quem sabe. É hora do latrocínio, digo a mim. Roubo seguido de morte, em relação à gramática. Dadá, Blablá, isso de querer destruir pra construir.
De minha parte, quanto às ausências que você, o Augusto, minha mãe me fazem, é inegável que meu peito é todo uva-passa, ou casca de maracujá seco, o que você quiser, contanto que lembre a drenagem ou pulverização. Mas comprei um peixe, o peixinho dourado mais lindo que encontrei, com uma velha quasímoda, na rua. Há algumas quadras daqui. Ele deve estar começando a definhar, aqui ao meu lado. Não troco a água há semanas, deliberadamente. É que estou tentando desviar minha atenção de coisas graves, à minha porta. Depois te conto. Essa é minha maneira sádica, mas sem prazer nenhum, de escolher a inofensiva beleza de um peixinho, pra violar. É como ser obrigada, contra a vontade, a torturar e a degolar uma criança que confiou em mim. Mas devo vê-lo morrer, o sacrifício é necessário. Os incas não imolavam seus próprios filhos no alto das montanhas, para os Deuses não deixarem o equilíbrio dos ciclos naturais se romper?
Por isso seu endereço hoje será a Cordilheira dos Andes. Número zero.
Beijos e suspiros.
Abigail.
Escrito por zé às 12h12
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