X-MAN, ou ENCHENDO LINGÜIÇA

O homem e sua imaginação criadora, mesmo nos seus gestos mais destrutivos. Uma bela morte, ou um belo assassínio, por exemplo. Claro que morrer de morte natural é péssimo pra mim, já falei sobre isso aqui. Ou ser atropelado por uma lambreta, como o Mr. Roland Barthes. Quem sabe ele não mereceu, junto ao resto dos semiólogos. Mas gostaria de comentar aqui um caso conhecido como Crimes da Rua do Arvoredo, ou mesmo Caso da Lingüiça, ocorrido em Porto Alegre, 1864.
José Ramos, açougueiro morador da Cidade Baixa, tinha como companheira Catarina Palse. A esposa, a certa hora da noite, saía pelas ruas, seduzia um bofe e o levava pra casa. Chegando lá, seu marido já espreitava em algum canto escuro a chegada da futura vítima. Um cronista da década de quarenta, Achylles Porto Alegre, explica melhor (no seu estilão Alan Poe de ser):
"[...] com requebros, sorrisos provocadores, seduzia e atraía à sua casa os incautos. Prelibando deliciosas horas de amor, a vítima, à hora combinada, corria para a sua aventura. Entrava na casa fatal [...] ao ser conduzida da sala para outro compartimento, o soalho, subitamente, desaparecia sob seus pés: era um alçapão que se abria. O desgraçado tombava no lúgubre porão, onde Ramis, que já o esperava, prostrava-o com um golpe de machadinha na cabeça. Em seguida saqueava a vítima - dinheiro, jóias, roupas, calçado, tudo lhe tirava - e ia mostrar à sua cúmplice, que sorria, vaidosa da sua força de sedução, o produto da féria."
Isso tá parecendo Hellraiser, não? Será que o Clive Barker estudou o caso? Eu sei que Charles Darwin ficou sabendo, e considerou “o maior crime da terra”. Enfim... José Ramos, para os íntimos Ramis, dissecava o cadáver, separava a ossada e, com a carne, confeccionava as lingüiças que vendia em seu açougue. A lingüiça era um sucesso. O problema é que as vítimas foram aumentando em número, e o cachorro de uma delas não parava de uivar em frente ao açougue do José Ramos. Será que o cão comeria seu próprio dono, quando a fome apertasse?
Encurtando a história, após as suspeitas, a polícia vasculhou a residência do casal e lá encontrou pertences das vítimas decorando a casa toda e, num pavimento inferior, uma cova improvisada revelou cadáveres, ossadas humanas e... o cadáver do cachorrinho que latia em frente ao açougue! Pois é, o casal tentou dar um jeito de calar os uivos noturnos do maldito cão denunciador, mas... não rolou.
José Ramos foi condenado e morreu na cadeia, em 1893. “Catarina-come-gente”, como ficou conhecia sua mulher, teve sua pena reduzida de 20 para 13 anos. Claro, justamente porque ela ajudou na denúncia do maridón, que teve seu crânio conservado para posteriores estudos. Isso é coisa de médicos lombrosianos, crentes que certos desvios de conduta (principalmente sexual e moral) tinham na estrutura anatômica dos porra-loucas algum sinal denunciador. Coisas da patologia criminal em tentar prever um criminoso nato. Medo, medo. Meio Minority Report, isso.
Ah, pra terminar, um relato de outro cronista sobre o caso (Sanhudo, 1979), falando de Catarina, ex-femme fatale sedutora, agora entregue ao “castigo” da decrepitude e encontrada morta na rua, no centro da cidade, em 1888:
“A velha andrajosa estava estendida na calçada, tendo parte do busto esquelético e da cabeça horrenda apoiados na parede do prédio que, nesta conjuntura, servia-lhe de triste travesseiro. Não podia ser mais feia! Nos olhos azuis baços e vidrados, distribuíam-se as carnes murchas e ressequidas duma cara chupada, onde se penduravam uns cabelos decididamente sem cor e no mais inimaginável desalinho. Em torno da boca asquerosa e semi-aberta, sangrentas manchas escuras e putrefadas deixavam aparecer dois ou três dentes cariados e enegrecidos que bem atestavam os últimos estágios dum estado canceroso da desgraçada mulher. O corpo era uma repugnante caixa de ossos, escondida nuns trapos imundos e fedorentos, donde sobressaíam os braços e as pernas esqueléticas, cobertas de feridas purulentas. Não tinha mais do que isso como vestimenta, a não ser uns chinelos de corda puídos, atirados sobre o chão, como atirado estava o seu grosso e sujíssimo chapéu de palha."
X-Humano? X-Man? Espetinho antropofágico? McAnibal? Deixa o McDonald’s ter esse insight.
[música do dia: Nine Inch Nails - "with teeth"]
Escrito por zé às 18h39
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