poisson

Dilatou-se desdentada, sem nenhuma estrela, a noite aquele dia. Daí que Abigail paria sorrisos soltos, à toa, fora do rosto, como o gato de Alice. Cobrindo a lua com dentes branquíssimos. Os drapeados da sua saia se dedicavam a dobrar-lhe a nudez em segredinhos de pano. Aí um moleque de rua agarra sua saia entre um passo e outro, pedindo grana.
- Tenho não, pivete...
- Onde cê vai com tanta pressa, tia?
- Comprar jornal.
- Você espera o dia acabar pra ler jornal?
- Não enche. Não vou comprar pra ler.
- Então o que vai fazer com ele?
- Não enche.
Chegam à banca de jornal. Abigail, como de costume, rouba um jornal discretamente, o coloca em seu casaco de couro e sai à francesa.
- Isso que você fez é feio, viu? - diz o garoto.
- Urrum. – acendendo um cigarro.
Ela abre o portão do prédio. Rindo de uma propaganda de mal gosto da Versace, mal percebe que o garoto ainda está preso à sua saia. Ele sobe junto e Abigail está rindo e maldizendo o anúncio. Chega em seu apartamento e toma um susto.
- Que cê ta fazendo aqui, moleque? Some! Anda, anda!
- Tô com fome.
- Não tenho comida, só um peixe morto no aquário.
- Serve.
- Ah, então você gosta de sashimi...
- Ã?
- Tsc... caralho, tenho filho desse tamanho? Saco... ó, vai recortando letra por letra dessa página do jornal aí!
- Êba!
Abigail pega o peixe morto na água imunda, coloca em cima da pia e enche um copo de vodka. Dá um gole com um nó na cara, dá outro e deixa cair outro sorriso. O garoto aparece às suas costas com um punhado de letras entre as mãos em concha.
- E agora? - ele pergunta.
- Agora vai pra sala.
Com uma pinça, Abigail coloca o punhado de letras dentro da boca do peixinho, liga o fogo e o frita. Quer matar o verbo e ao mesmo tempo presentear o garoto com literatura e carne. (Duas coisas que nunca deveriam ser excludentes. Mas há literatos de gabinete. Assim como há poetas que, de tanto viver, esqueceram de escrever.) Coloca num pires, dá uma pitada de shoyu e leva pro menino, deitado no chão de bruços, folheando o jornal.
- Hum!... Nossa, como tava gostoso! Faz mais?
- Você nem mastigou, menino! Também, né... pelo tamanho do peixe... ah, e não tenho mais.
- Tudo bem. Posso dormir com você?
- O nome dele era Hans. Pequenino Hans.
- É? Gostei do nome. Me chama de Hans?
- É... parece uma boa. Afinal, meu peixe só trocou de aquário. - outro sorriso desliza, rosto afora.
[música do dia: Nina Simone - "my baby just cares for me"]
Escrito por zé às 15h38
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