Um Inesquecível Presente de Quinze Andares

Falando em peça, ainda tá rolando no Espaço dos Satyros Dois (até 16 de dezembro) a engraçadíssima peça “Um inesquecível presente de quinze andares”. Vale a pena conferir, mesmo. Com destaque para a atuação do João Fábio, não tem como não citar isso.
O Satyros fica na Praça Roosevelt, 124, Consolation. Fone: 3258-6345. Quintas e Sextas, 21h30. R$15. Estudantes, aposentados e classe teatral 50% de desconto.
Bem legal o cartaz. Me lembra Arthur Bispo do Rosário, Leonilson e Basquiat.
Ah, taí o resumo, que dei um "ctrl-c" "ctrl-v" do blog do Mario:
Samuel é um jovem ingênuo e sonhador que trabalha numa livraria e vive a grande expectativa no dia de seu aniversário de conhecer Lili Sol, uma moça misteriosa e amiga de Arquiteto, um universitário boa vida, dono do apartamento onde mora Samuel. Samuel, Muquifo, Verinha, Arquiteto e Lili Sol, cinco jovens da grande metrópole São Paulo, cinco mundos diferentes lutando pela sobrevivência, por desejos e pela vida.
Escrito por zé às 10h58
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hibridismo e desterro

Post com notícias atrasadas. Sobre a peça que vi sábado, “o homem que queria ser Rita Cadillac”, dirigida pelo Gabriel. Fui com o Nick, Lee, Ligia e Bill. Risadas à parte, andei pensando no que o personagem do Wiltão me fazia lembrar. Conheço uma figura lendária de Londrina, um esquizo chamado Bartolomeu, de 70 e poucos anos. Cabelos e cavanhaque prateados, unhas imensas pintadas de vermelho, como as do pé, saia e sandália. Nascido em Quixadá-CE, acabou descendo pra Londrina na década de 40, acompanhado da esposa e prima. Instalou-se próximo do que hoje é a famosa Adega União, do querido Seu Zé, um repentista paraibano. Pois bem, houve uma época em que Bartolomeu, já com uma filha pequena, desinteressou-se pela esposa. Inclusive sexualmente. Numa manhã de 1972, Dona Francisca levantou-se da cama umas 4 da matina, trancou-se no banheiro e não saiu até o amanhecer. Ao acordar para trabalhar no Instituto Brasileiro do Café (Bartolomeu tinha emprego público federal), o maridón dá de cara com sua esposa saindo do banheiro com um recém-nascido no colo. Sozinha, “Chica” realizou um parto silencioso no banheiro da própria casa. Após uma discussão sobre a paternidade do filho (Bartolomeu negou, já que há tempos não trepava com Chica), a única filha do casal, de 9 anos, acorda. Bartolomeu pede que a criança vá pra casa do vizinho. Mune-se de dois punhais de sua coleção, pendurada na parede. Um em cada mão. E dá em torno de quinze punhaladas na mulher. A criança deve ter caído do colo, sei lá, mas sobreviveu, e hoje deve estar com uns 33 anos. Chica também sobreviveu, após uma internação de trinta dias no hospital.
E o que isso tem a ver com um traveco vestido de Rita Cadillac cover? Bom, Bartolomeu, depois desse dia, foi morar sozinho e iniciou uma metamorfose nunca antes realizada, pelo menos em público. Começou a usar saia, deixar a unha crescer, pintá-las, etc. De uma certa forma, acho que Bartolomeu impregnou-se de Dona Chica, de um feminino terrível, de um abandono enfeitado. Não que ele tenha virado traveco propriamente dito, porque conservou o cavanhaque e a rispidez. Mas, através da mímica de alguém que se foi, ou nunca esteve, realiza uma pantomima do desterro de si mesmo. É quase como ir embora pro deserto e levar alguém consigo sob a pele; conservar alguém por perto levando no estômago, ou através de gestos que se afeminam, de uma voz que se esforça em aveludar-se e malogra.
Wiltão, em seu personagem, não realizou seu sonho de se encontrar com Rita Cadillac. Acontece. Mas a traz o mais perto que pode, ao entrar num vestido e num transe e rebolar um conga-la-conga. Gostei.
[música do dia: Cake - "i will survive"]
Escrito por zé às 10h33
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