
[Diane Arbus: “a child with toy grenade in Central Park, N.Y.C.”, 1962]
Querido Papai,
Até onde o tempo já carcomeu teu corpinho lacrado em esquife de zinco, hã? Quem diria, hein, Dr. Walter, PHD?! Camada após camada, epiderme-derme-hipoderme, ego-superego-id, tudo sendo devorado pelo Tempo a alguns palmos abaixo do nível do mar. Não há vermífugo redentor que te salve. A mamãe? Tá bem, melhor ainda sem você. Não que eu e ela te odiemos, só te achávamos um chato. Entende? Piolho edipiano sob minha calcinha, querendo me comer, mas dizendo que nós mulheres temos inveja do seu pipi. Bom, chega desse assunto que me enervo.
Você iria gostar de tratar um menininho que esteve comigo, há uns dias atrás. Moleque largado na rua, no mundo. Dei de comer a ele. Um peixinho de aquário, que tive que sacrificar por motivos que não direi a você. Antes que me analise. Voltemos ao garoto: autobatizou-se "Hans", pra mim. Achei lindo. Era o nome do peixe que engoliu por inteiro. Pra não retirar o direito de um cadáver nadar, no estômago. E latrina afora. Acordei no dia seguinte com o Hans tentando entrar no aquário vazio, mal o sol tinha dado o ar da graça. Disse ao pequenino Hans:
- Dá isso aqui. Vem cá... tá vendo lá embaixo?
- Hum!
- Joga! - E ele jogou. O aquário, digo. Do 15º andar. Espatifou-se arenoso. - Você pode mais que isso, vai, Hans. Tenta fazer o mesmo, mas com um aquário maior!
- Desse tamanho? – mostrou-me com os braços abertos.
- Maior.
- Assim?
- ...
- Mas é pra eu tentar entrar no aquarião ou pra espatifá-lo?
- Você vai saber quando for a hora.
Claro que você, papai, iria fazer interpretações mirabolantes, pós-lacanianas, invocaria a Melanie Klein, “o garoto tem um complexo de Édipo na tentativa de substituição do trauma de castração e da fase oral, em conflito com seu Self e penetrando um aquário como que regredindo ao útero materno, o Éden primordial”, blábláBLERGH. Boa sorte, na análise.
De minha parte, só digo que ele tem sede de Vida (em sua Fome, há mais Força transbordante que num Monge auto-carbonizado no Vietnã). Por isso me mudei daquele apê. O pequenino Hans já deve ter entendido tudo, em sua sabedoria (combustão?) espontânea. Não precisa mais de mim. Nem eu quero ser responsável por ninguém. Por isso vai parir a si mesmo, daqui um tempo. Aí sim gostaria de reencontrá-lo. E ele diria:
- Biga... onde toco, vira carvão...
Fico por aqui, papa. Me escreve?
Tua: Abigail.
Teu endereço: Necrópole, nº 550. Clínica dos cri-cris edipianos.
A/C Dr. Walter, PHD.
Escrito por zé às 11h21
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