GIRÂNDOLA

Daphne, a bailarina infame, era uma bomba giratória cujos olhos sempre caíam enregelados nos bêbados de rua, seus dançarinos de gestos gagos e torvelinhos de bebida barata. Porque, como ela, sabem o significado da repetição, levada ao insuportável. Beber, cair, vomitar, apagar, vomitar, acordar e continuar. Porque é necessário construir um dique de garrafas vazias, uma fortaleza vítrea contra a maré que a tudo traga e tomba, insinuando vazamentos pelas reentrâncias.
Ficava puta, a professora de ballet de Daphne, quando vociferava “de novo!... péssimo, de novo, de novo!”, e a pequenina Daphne mantinha o semblante nulo. (O que caía como uma lâmina de papel entre os dedos, o olhar da aluninha pra professora; é que os sádicos brocham quando encontram um masoquista no caminho que diz "açoita-me!, calca-me!". Não há a tensão necessária ao sádico, nisso, já que sua ereção precisa de uma vítima que se debata, maldiga, cuspa, berre socorro e chore. Daphne não era dessa estirpe. Já em relação ao masoquismo, também seria reducionista encará-la como tal). Obedecia, girava de novo, caía, levantava, girava, errava, beirava a perfeição, e continuava, non stop. E a professora lhe esperando um sussurro de dor, de cansaço, um signo humano, testando Daphne aos limites, sem resposta de dor alguma. Chegava em casa e chorava um insucesso agridoce, no banho. Enquanto Daphne ia brincar de atrapahar o significado das coisas, bordando uma língua para si.
Ao pentear uma boneca trancada ao banheiro, o pente se prende num nó de cabelos e a cabeça cai na privada. E l’enfant terrible enfia desesperada o braço até o cotovelo, procurando a cabeça em vão, enquanto lhe explodem quinze olhos úmidos num susto de parto e invaginação. Muda de nome todo dia, a pequenina Daphne. Ama girar uma velocidade em si até lhe saírem sorrisos centrifugados do rosto vulcânico. Toda eletricidade entra em erupção. Aqui, acolá, em tudo o que se ama de inumano numa língua estranha.
[música do dia: Billy Idol - "dancing with myself"]
Escrito por zé às 19h51
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O Ornitorrinco - O pensamento me veio órfão, sem autoria, daí ser desnecessário dizer “meu”, “eu”, ou mesmo “você”, quando houve a diluição de tudo. O “significado”, a “coisa” deu lugar a uma forma de pensar impessoal, grave e lisa, ou seja, incapturável às garras cartesianas. O Autor uno e indivisível morreu, dando vazão às 7 (.000) faces do Dr. Lao.
O Escargot - Mmmmm (reação bovina)... não diga?...
Escrito por zé às 18h12
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