QORPO-SANTO

Qorpo-Santo (1829-1883)
José Joaquim de Campos Leão, ou Qorpo-Santo, como autobatizou-se, é um cara bem pouco conhecido no universo literário e teatral brasileiro. Gaúcho, contemporâneo de Machado de Assis, é considerado o precursor do teatro do absurdo. Longe de querer fazer escola, porém, seu ofício predileto era inventar gramática, grafias e um teto todo seu. Na sua proposta de reforma ortográfica, já achava inútil o “ph” das “pharmacias”, o “c” cedilhado, o “h” quando, na época, não soava (deshumano, deshonesto) e o próprio “x”, devendo ser substituído pelo “q” (sexo ficaria seqso). Daí o nome da sua obra mais importante, “ensiqlopédia – ou seis meses de uma enfermidade”, e sua própria alcunha, inventada para si mesmo: Qorpo-Santo. Costumava entrar em casa pela janela, mesmo com a porta aberta. Fora enviado aos psiquiatras do Rio de Janeiro, que o reenviaram de volta aos médicos gaúchos, dizendo que o cara não tinha nada. Descontentes, ou melhor, insistentes, os médicos da ainda província de Porto Alegre o encararam como acometido de “monomania”, já que não fazia outra coisa senão escrever e escrever (apesar de seu ofício como professor). O subtítulo “seis meses de uma enfermidade” não é à toa, já que escreveu quase toda sua obra somente neste intervalo de tempo. Imprimiu tudo em sua tipografia particular, já que dificilmente alguém em sã consciência, na cidade de Porto Alegre do século XIX, daria crédito a um escritor como o Qorpo.
Por aqui, a editora Iluminuras lançou seu teatro completo. São 18 peças completamente dementes, de uma comicidade nonsense; com certeza Ionesco e Alfred Jarry se identificariam muito. Já a editora Casa da Palavra lançou, mais recentemente, uma coletânea de textos inéditos intitulada “Miscelânea Quriosa”, da qual transcrevo uma estrofe de uma poesia notável:
“com lápis rombudo escrevo
por falta de um canivete
mas ainda assim me diverte
borrões que a fazer m’atrevo.”
Escrito por zé às 14h40
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