QUANDOS AS COISAS TRANSBORDAM
.fumadora de ópio.
As coisas transbordavam entre si e eu era a superfície perfurada de poros por onde tudo passava; o que ficava era pó e fuligem. Não se trata de ter a pele como filtro, mas território de bombardeio e passagens, já que nada fica. Minha prosa dava saltos do papel e me atingia o senso, me tomava a rédea. Daí que todo livro ficou inacabado, porque passei a viver tudo o que deveria prosseguir escrevendo; a superfície de inscrição era o pergaminho da minha própria pele.
Todo sonho insistia em derramar na vigília uma gota de sêmen, ultrapassando a linha-limite (agora aberta) que meus olhos cerrados deveriam estancar. Não era só polução noturna, mas diurna, matinê e tudo o mais. Fazer da própria vida uma obra de arte? Até que poderia ser, se não houvessem essas montanhas de poeira preenchendo cada buraco negro que brota dos poros esgarçados.
Tenho na caixa torácica uma música da Aretha Franklin, “i’m losing you”. Vi que era a hora – grave – de levar os lobos a passeio.
Escrito por zé às 18h31
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