O teu corpo é hediondo. É como o corpo de um leproso. É como uma parede de gesso por onde as víboras passaram, como uma parede de gesso onde os escorpiões fizeram ninho. É como um sepulcro esbranquiçado, cheio de coisas nojentas.
(...)
Os teus cabelos são horríveis. Estão cobertos de lama e pó. (...) A tua boca é como uma romã cortada por uma faca de marfim.
(...)
O teu corpo era uma coluna de marfim num pedestal de prata.
Salomé (Oscar Wilde, 1891)
Tinha uma alcatéia em pedaços no estômago, foi quando a angústia coroava uma multidão de silêncios com uma girândola de pólvora em chamas. Ali, em frente ao templo de gelo do Rodrigo, cerrei os punhos, mastiguei os próprios dentes, dei suavemente com a testa na porta, que se abriu. Ele tava de costas, talhando órgãos e palavras para si; me olhava pelos cantos, os olhos dizendo “taí um vulto que não é bem vindo” (os vultos só e sempre aparecem ao canto dos olhos, escorregadios às miradas e aos closes).
A Ruína me habitava com cãibras até os ossos. Ainda assim, tive que dar meia-volta e sair dali em completo desalinho, a pele se me abria sísmica, lá vai um farrapo nu com a musculatura exposta em fios de cobre, pétalas e ramalhetes de ferrugem. As rótulas dos joelhos me subiram pelos flancos e pousaram na saboneteira das clavículas, gotejando gordura fresca. Eu era uma explosão que o tempo congelou no paroxismo, no “ponto mais elevado da curvatura do gráfico”, diria o Dr. Foda-se.
Rodrigo, o forjador de giletes de sal, seria um monje avesso a visitas, com a exceção da Solidão. Eu lhe proporia uma barganha: um colar com rubis do meu sangue coagulado em troco de uma de suas giletes de sal. Mas me sobraram essa palavras, enraizadas na gengiva no lugar dos dentes (triturados):
"a solidão sempre aparece com beijos & bombons
a solidão faz visitas regulares a seus amigos íntimos
a solidão brinca no mar com seus dedos de açúcar
a solidão vive sorrindo pra desconhecidos
a solidão ainda se emociona com filmes antigos na televisão
a solidão imagina gueixas cujos olhos são borboletas de vidro
a solidão bebe em meu corpo seu próprio desespero
a solidão adora esconde-esconde e amarelinha
a solidão coleciona diários e discos do Coltrane
a solidão usa pijamas de bolinhas e óculos quebrados
a solidão depois do sexo ainda se sente sozinha
a solidão e eu somos apenas bons amigos
a solidão corta meus pulsos com uma gilete de sal
depois sai chapada pelas ruas
com uma folha de alface na lapela."
(P.s.: acima, trechos da poesia do Rodrigo Garcia Lopes sobre a solidão, conterrâneo de Londrina-PR. Traduziu gente como Rimbaud e Sylvia Plath, junto com o Maurício Arruda Mendonça)