(Há sentimentos cuja intensidade provocam formações geológicas nas coisas. Quando há brisa ou tornado, são nessas reentrâncias que um silvo anuncia a Hora Grave. Nos buracos das coisas uma pasta vai se formando, a quintessência de seja lá o que for. Alguns se alimentam dessa pasta acumulada nos cantos, na falta de poder provocar uma escultura no Tempo a ponto de infartar um relógio com um sopro de melodia e terror.) Vestido com seu traje esfarrapado de gala, recolhido da última tendência outono-inverno dos sacos de lixo no Bom Retiro, o Sr. X subiu nos telhados da sua Santa Casa de Misericórdia e foi à procura de fumo para o seu cachimbo caseiro (caneta Bic fincada numa embalagem de Yakult). “É nas bordas da chaminé que dá fumo. Conheço esses telhados como ninguém”. Naquele dia, a chaminé da divisão de ortopedia cuspia uma densa nuvem com restos de chagas; o Sr. X recolheu toda a pasta e fuligem formadas na borda com o cachimbo, acendeu, deitou e desenhou com estrelas, ligando os pontos. Que se transformaram em flores de vidro. E num Satã de prata. E nas chagas de São Sebastião. Porque o Sr. X coleciona e adora as chagas dos outros, na falta de uma. Sr. X é abutre de telhado de hospital e viciado em “haxixe” de chaminé, a quintessência dos queixumes.
Escrito por zé às 11h19
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